Durante 40 anos, Luiz Buozzi construiu uma trajetória marcada por grandes desafios, projetos de impacto e liderança na Volkswagen. Engenheiro de formação e profissional de Marketing por vocação, ele participou da criação de alguns dos maiores eventos da empresa e descobriu, ao longo dessa jornada, que o verdadeiro diferencial de qualquer organização está nas pessoas.
Pai e marido, como faz questão de se apresentar antes de qualquer cargo, Buozzi reúne essa experiência no livro Gente S.A., uma obra que transforma histórias reais em reflexões sobre liderança, saúde emocional, propósito, marca pessoal e relações humanas no ambiente corporativo. Mais do que compartilhar casos de sucesso, ele convida o leitor a abandonar o papel de espectador da própria carreira para assumir o protagonismo da própria história.
Nesta entrevista, o autor fala sobre o processo de criação do livro, os aprendizados acumulados em mais de quatro décadas de carreira, a importância da autenticidade nas organizações e o legado que espera deixar para as novas gerações de profissionais e líderes.
1- Depois de mais de quatro décadas de carreira, por que você decidiu escrever “Gente S.A.”?
Decidi escrever o “Gente S.A.” porque, após quarenta anos vivenciando o dia a dia de uma das maiores corporações do mundo, percebi que o maior patrimônio de qualquer empresa está nas pessoas.
Minha carreira na Volkswagen me deu a visão técnica e estratégica, mas foi o contato humano que me deu o propósito. Percebi que muitas pessoas passam pela vida profissional como meras espectadoras de suas próprias carreiras.
Escrevi este livro para encorajá-las a assumir o papel de protagonistas e narradoras de suas trajetórias.
O Livro chama “Gente S.A”, onde o ‘S’ (Somos) e o ‘A’ (Autênticos) reflete a autenticidade que construímos relações verdadeiras, carreiras com sentido e ambientes onde ninguém precisa deixar a alma na porta para entrar.
São 11 histórias reais, onde os protagonistas são as pessoas. Uma maneira de apresentar as pessoas que proposito não é algo que decidimos uma vez, e nunca se muda. O mundo corporativo apresenta as possibilidades de carreira e cabe a nós sabermos qual melhor se adequa a nossa essência.
2- O livro reúne muitas experiências reais. Foi difícil transformar vivências tão pessoais em uma obra que pudesse ajudar outros profissionais?
Não diria que foi difícil, mas sim um exercício profundo de vulnerabilidade e responsabilidade. Quando decidi abrir o baú das minhas quatro décadas na Volkswagen, o desafio não foi lembrar das histórias, mas sim garantir que cada uma delas servisse como uma ponte, e não apenas como um relato.
Transformar uma vivência pessoal em uma ferramenta para o outro exige que você se coloque no lugar do leitor. Eu precisei revisitar momentos de grandes vitórias, mas também de erros e aprendizados duros, para extrair a essência do que chamo de encantamento.
O objetivo nunca foi dizer ‘vejam o que eu fiz’, mas sim ‘vejam o que aprendi e como isso pode nortear a trajetória de vocês’. As observações que incluí ao final de cada capítulo foram fundamentais para isso: elas são o fechamento do ciclo, onde a história pessoal se transforma em um ensinamento real.
Mas eu tenho que deixar registrato a importância do meu Time. Eles eram a espinha dorsal de tudo o que realizamos, pois cada um tinha um papel bem definido dentro da equipe, e o trabalho quando todos caminham para uma mesma direção, os resultados eram alcançados com mais qualidade.
Eu era um instrumento catalisador que estava sempre cuidando, desenvolvendo e de uma certa forma mentorando cada um deles, pois sempre considerei que se estivermos abertos para uma conversa além do mundo corporativo, o líder torna-se um porto seguro para seus funcionários, que podem trabalhar com mais segurança e confiança.
3- Você defende que resultados e bem-estar podem caminhar juntos. Ainda existe resistência das empresas em enxergar isso?
Infelizmente, a resistência ainda é uma realidade em muitas empresas. Muitas parecem estarem comprometidas, mas não adianta falar que faz coisas para o bem-estar, é preciso que a empresa seja percebida como tal.
Por muito tempo, fomos ensinados que o resultado era o fim e as pessoas eram apenas o meio. Não importava a que preço, mas as metas teriam que serem atingidas
Mas o que aprendi em quarenta anos de Volkswagen é que essa conta não fecha a longo prazo.
Empresas que ignoram o bem-estar podem até colher números imediatos, mas perdem a alma, a criatividade e, eventualmente, seus melhores talentos.
No “Gente S.A.”, eu defendo que o bem-estar não é um custo, mas o combustível do resultado sustentável. Quando o colaborador se sente respeitado e encantado, ele deixa de entregar apenas horas e passa a entregar valor. A resistência diminui quando os líderes percebem que pessoas felizes produzem mais, inovam melhor e protegem a marca. O lucro é o resultado de gente que tem prazer no que faz.
Trabalhar 8 horas por dia, 5 dias por semana, sendo infeliz, descontente, isso não faz bem nem para a empresa e nem para o funcionário.
4- Ao longo da sua trajetória, qual foi a maior lição que as pessoas ensinaram a você e que acabou se tornando um dos pilares do livro?
A maior lição que aprendi em quarenta anos de carreira foi que ninguém faz nada sozinho, e que o verdadeiro poder de um líder não está na sua capacidade de mandar, mas na sua habilidade de escutar e encantar.
Muitas vezes, em grandes corporações, somos tentados a olhar apenas para os processos e para os números. No entanto, foram as pessoas que me ensinaram que o ‘como’ fazemos as coisas é tão importante quanto o ‘o quê’ entregamos. Aprendi que, quando você trata alguém não como um recurso, mas como o protagonista da sua própria função, o nível de entrega muda completamente.
Eu, como Engenheiro, fui trabalhar na área de Marketing, sem saber absolutamente nada de Marketing, e foram as pessoas que me ensinaram, mas para isso eu precisei ter a humildade de perguntar e a vontade de aprender.
Esse é o pilar fundamental do “Gente S.A.”: a convicção de que o sucesso sustentável é fruto de conexões humanas autênticas. No livro, eu reforço que o maior erro de um profissional é esquecer que, por trás de cada crachá, existe uma história que merece ser respeitada e valorizada.”
5- O livro aborda temas como saúde emocional, liderança e relações humanas. Na sua visão, qual desses desafios é hoje o mais urgente dentro das organizações?
Embora esses temas estejam profundamente interconectados, acredito que o desafio mais urgente hoje é a saúde emocional, mas vista através da lente das relações humanas.
Durante minhas quatro décadas na Volkswagen, vi o foco mudar da mecânica para a eletrônica e, agora, para a inteligência artificial. No entanto, percebo que, quanto mais tecnologia inserimos nas empresas, mais carentes de humanidade elas se tornam. O esgotamento emocional que vemos hoje é, muitas vezes, fruto de relações superficiais e de uma liderança que esqueceu como encantar.
No “Gente S.A.”, eu defendo que uma organização só é saudável se as pessoas que a compõem se sentirem seguras para serem humanas. Não adianta ter a melhor estratégia de marketing se o time está emocionalmente exausto. O desafio urgente é resgatar a conexão real: o olhar no olho, a escuta ativa e o respeito à história de cada um. Quando cuidamos das relações humanas, a saúde emocional e a liderança de excelência tornam-se uma consequência natural.
Mas eu não posso deixar de registrar que a média liderança é o elemento de fundamental importância para que o equilíbrio exista, pois é o Supervisor ou o Gerente que tem a responsabilidade de cuidar da saúde e do bem-estar da equipe, e não RH como muitos dizem.
6- Você fala sobre marca pessoal de uma forma diferente da autopromoção. Como construir uma reputação sólida em um mercado cada vez mais competitivo?
A grande diferença é que a autopromoção foca no ‘eu’, enquanto a marca pessoal sólida foca no ‘outro’. No “Gente S.A.”, eu defendo que sua marca não é o que você diz de si mesmo em um post de rede social, mas o rastro de valor e encantamento que você deixa por onde passa.
Para construir uma reputação em um mercado competitivo, o segredo não é gritar mais alto, mas entregar com mais verdade. Eu vivi isso na Volkswagen: minha marca foi construída na consistência das minhas entregas e na qualidade das minhas relações humanas ao longo de décadas.
Uma reputação sólida se baseia em três pilares: autenticidade (ser quem você é), serviço (como você ajuda as pessoas a resolverem seus problemas) e legado (o que as pessoas sentem quando você sai da sala). No livro, eu convido o profissional a ser o ‘autor’ da sua marca, garantindo que cada capítulo da sua carreira seja escrito com ética e propósito, transformando sua trajetória em um ativo que o mercado respeita naturalmente.”
Uma marca pessoal bem construída, ela faz você, ser lembrado, considerado e o mais importante, não existe atalho para o sucesso, tudo leva tempo, paciência, dedicação e principalmente persistência.
7- Como foi o processo de desenvolvimento da obra junto à Literare Books? O que mais chamou sua atenção durante essa jornada editorial?
Trabalhar com a Literare Books foi um processo de refinamento e, acima de tudo, de respeito à minha história. O que mais me chamou a atenção foi o cuidado deles e da minha ghostwriter foi preservar minha essência. Eu não queria um livro técnico e frio; queria algo que transpirasse humanidade, e a editora entendeu isso desde o primeiro dia.
A jornada editorial foi um exercício de curadoria. Juntos, selecionamos as experiências dos meus quarenta anos na Volkswagen que tinham o maior potencial de gerar aprendizado, aprendizados e exemplos de superação, atitude, resiliência, persistência e principalmente o encontro do verdadeira proposito. E com isso a paixão pelo meu trabalho.
O processo de revisão e diagramação foi feito com um rigor que me deu a segurança de que o “Gente S.A.” chegaria às mãos do leitor como uma obra de excelência.
Ver minhas vivências pessoais ganharem forma e estrutura editorial foi emocionante. A Literare não apenas publicou um livro; ela me ajudou a materializar um legado que agora pertence a todos que buscam humanizar suas carreiras.”
E para finalizar, fiz grandes amigos e amigas que proporcionaram não apenas um lançamento diferenciado nas instalações da editora, mas um relacionamento que está indo além do profissional, pois com algumas pessoas, mesmo depois do lançamento mantenho uma amizade embasada na colaboração e consideração mútua.
8- Depois de ver o livro pronto nas mãos dos leitores, houve algum sentimento ou aprendizado que surpreendeu você como autor?
O que mais me surpreendeu foi perceber que, embora eu tenha escrito o livro baseado na minha trajetória de quarenta anos, as histórias deixaram de ser minhas quando foram lidas. O sentimento é de uma gratidão profunda ao ver que um aprendizado que tive em uma sala de reunião na Volkswagen, décadas atrás, hoje serve de parâmetro para um jovem profissional ou para um líder em formação.
Como autor, o aprendizado mais impactante foi constatar os comentários de pessoas amigas que identificaram com minha maneira de ser e pensar.
Isso me provou que, quando escrevemos com verdade, não existem fronteiras. Acho que com o meu livro e a maneira simples e verdadeira que eu escrevi, irá motivar as pessoas a contarem suas próprias histórias, inspirados pelas páginas que ajudei a narrar, é a maior recompensa que eu poderia receber.
O livro pronto não é o fim de uma jornada, mas o início de milhares de outras histórias que agora poderão surgir, e ajudar inúmeras pessoas nos mais diversos temas e assuntos, mesmo fora do mundo corporativo.
9- Se pudesse resumir “Gente S.A.” em apenas uma mensagem para quem está iniciando a carreira ou assumindo uma posição de liderança, qual seria?
Eu diria a frase que está na contracapa do livro: “Seja quem você realmente é, não o personagem que você acha que precisa ser. A sua essência é o que faz a diferença”
10- Olhando para toda a sua trajetória, na Volkswagen, na liderança de equipes e agora como autor, qual legado você espera deixar por meio deste livro?
O legado que espero deixar com o “Gente S.A.” uma semente plantada no coração de cada leitor.
Olhando para trás, para os meus quarenta anos de carreira, percebo que os prêmios e os resultados financeiros são efêmeros, mas o impacto que causamos na vida de alguém é permanente.
Espero que este livro seja lembrado como um convite à humanização. Quero que, daqui a muitos anos, um líder se lembre-se de que aprendeu nestas páginas a importância de olhar no olho e valorizar a história de cada colaborador.
Meu desejo é que o legado do “Gente S.A.” seja uma geração de profissionais que não se contentam em ser apenas engrenagens, mas que assumem o papel de narrar trajetórias ricas em propósito, ética e respeito humano.
Se eu conseguir fazer com que uma única pessoa deixe de ser espectadora para se tornar a protagonista da sua própria vida, sentirei que minha missão como autor e mentor foi plenamente cumprida. No fim, o que fica não é o que construímos, mas o que oferecemos para as pessoas com base naquilo que aprendemos.
Posso dizer que nunca aprendi tanto depois que me aposentei, e isso só foi possível graças as pessoas que contaram suas próprias histórias e eu tive a oportunidade e a vontade de conhecer. Venho de uma geração que teve que aprender; a criar, a construir, a descobrir, a buscar o novo, e isso me proporcionou a condição de aprender desde a lidar com a inteligência Artificial, mas também buscar o entendimento do comportamento das novas gerações.





