Nascido no sertão da Bahia e criado entre os becos de Paraisópolis, Gilson Rodrigues transformou a própria história de superação em ponte para milhares de pessoas. Dormiu embaixo de uma mesa de sinuca, enfrentou a fome, o preconceito e a invisibilidade, mas escolheu não ser definido pelas circunstâncias. Escolheu liderar.
Fundador do G10 Favelas, hoje reconhecido como o maior bloco de impacto social das comunidades brasileiras, Gilson levou a potência da favela à Organização das Nações Unidas (ONU), palestrou em Universidade Harvard e fez história ao tocar o sino da New York Stock Exchange. Para ele, não é preciso sair da favela para vencer, é preciso fazer a favela vencer junto.
Autor do best-seller “O Filho da Mudança”, publicado pela Literare Books International, ele agora amplia sua missão ao falar também com o público infantil, mostrando que transformação começa cedo, e começa por dentro.
Nesta entrevista exclusiva, Gilson fala sobre fé, liderança, identidade, infância, responsabilidade social e o que aprendeu ao transformar sobrevivência em propósito. Uma conversa direta, intensa e inspiradora com quem decidiu ser o próprio herói, e abrir caminho para muitos outros.
1. Você costuma dizer que é o “filho da mudança”. Em que momento da sua vida essa virada deixou de ser sobrevivência e virou propósito?
A virada aconteceu quando eu entendi que a minha dor não era só minha. Enquanto eu estava apenas tentando sobreviver, eu lutava por mim. Mas quando percebi que milhares de pessoas em Paraisópolis viviam a mesma realidade, eu entendi que precisava transformar a minha história em ponte. Ali deixou de ser sobrevivência e virou propósito. Eu nasci na escassez, mas escolhi viver na transformação.
2. Como a sua infância entre a Bahia e a comunidade de Paraisópolis moldou o líder social e empreendedor que você se tornou hoje?
A Bahia me deu raiz, identidade e fé. Paraisópolis me deu visão, coragem e responsabilidade. Crescer na periferia me ensinou a empreender por necessidade, a criar soluções com o pouco que havia. Cada dificuldade foi uma escola. Eu aprendi cedo que liderança não é título, é serviço. E que quem vem da favela aprende a administrar crise antes mesmo de aprender a administrar dinheiro.
3. À frente do G10 Favelas, você passou a defender que a favela precisa de oportunidade e não de salvação. Qual foi o episódio que consolidou essa visão?
Durante a pandemia, quando organizamos as próprias lideranças locais como ´Presidentes de Rua’ para cuidar da comunidade, ficou claro que a favela não é problema: é potência. Não ficamos esperando ajuda chegar; criamos soluções, distribuímos alimentos, organizamos saúde, mobilizamos empreendedores. Ali ficou evidente para mim: não precisamos que nos salvem, precisamos que invistam, que abram portas, que reconheçam a capacidade que já existe dentro da favela.
4. Seu livro autobiográfico “O Filho da Mudança” conta uma trajetória de fé, superação e impacto social, mostrando que o improvável pode se tornar inevitável. Qual foi a parte mais difícil de reviver emocionalmente durante a escrita?
Reviver a infância, a fome, o preconceito e as noites difíceis foi doloroso. Escrever sobre o menino que dormiu embaixo de uma mesa de sinuca mexeu profundamente comigo. Mas entendi que contar essa parte era necessário, porque muitas pessoas ainda estão vivendo essa fase da história, e precisam saber que ela não é o ponto final.
5. A obra também registra a construção de projetos que transformaram a realidade econômica das periferias brasileiras. O que você espera que o leitor faça diferente depois de terminar a leitura?
Eu espero que o leitor mude a forma de enxergar não somente a favela, mas a própria vida. Que pare de ver carência e passe a enxergar potência econômica, cultural e humana. E mais do que isso: que se torne parte da solução. Seja investindo, apoiando, empreendendo ou simplesmente acreditando. O livro não é sobre mim; é sobre o que é possível quando alguém decide agir.
6. Depois do sucesso editorial, você agora leva essa mensagem para o público infantil com “As aventuras de Gilsinho”. Como nasceu a ideia de transformar sua história em uma narrativa acessível para crianças?
Eu sempre digo que a transformação começa na base. Se uma criança aprende desde cedo que ela é capaz, que a origem dela não limita o futuro, nós mudamos gerações. A ideia nasceu do desejo de falar com o menino e a menina que eu fui, e que ainda existem nas periferias do Brasil.
7. O livro de colorir traz valores como autoestima, solidariedade, liderança e fé, além de atividades educativas e personagens inspirados em pessoas reais da sua vida. Qual transformação você espera plantar nas crianças que tiverem contato com a obra?
Quero plantar identidade e pertencimento. Quero que cada criança entenda que ela pode ser protagonista da própria história. Que liderança não é mandar, é cuidar. Que fé não é apenas religião, é acreditar em si mesmo. Se uma criança terminar o livro dizendo “eu posso”, já valeu a pena.
8. O pré-lançamento aconteceu final de fevereiro e o lançamento oficial em março. O que o público pode esperar desses encontros com você e com as crianças leitoras?
Podem esperar encontros cheios de emoção, diálogo e inspiração. Não será apenas um evento de autógrafos, será um momento de conexão. Quero ouvir as crianças, abraçar histórias, incentivar a leitura e reforçar que o livro é uma ferramenta de transformação social.
9. Como foi a experiência de ser autor pela Literare Books International e como a editora contribuiu para transformar sua história e sua mensagem em livros?
Foi uma experiência muito especial. A Literare teve um papel fundamental no processo editorial, na organização do conteúdo, na revisão e na construção do projeto gráfico, sempre respeitando minha voz, minha identidade e minha missão. Transformar vivência em livro é transformar memória em legado, e contar com uma editora que entende e valoriza isso faz toda a diferença.
10. Olhando para o menino que dormiu embaixo de uma mesa de sinuca e para o líder que hoje inspira milhões, que conselho você daria para quem sente que nasceu sem oportunidades?
Eu diria: sua origem não define o seu destino. As circunstâncias podem atrasar, mas não podem impedir quem decide persistir. Use a dor como combustível, transforme a revolta em estratégia e nunca perca a fé. Você tem o poder de escrever uma nova história. O impossível só existe até alguém provar o contrário.




