Administradora, mestre em Educação, escritora, filósofa, psicanalista e especialista em Liderança Regenerativa, Marcela Argollo é uma das vozes mais consistentes na construção de um novo paradigma para os negócios e a sociedade. Com mais de 15 anos de experiência no mercado corporativo, atua no desenvolvimento de lideranças conscientes e na criação de culturas organizacionais mais humanas e sustentáveis. Cofundadora da Estrategic e do Bliss Spot, Marcela também é colunista de ESG em revista de negócios e consultora em governança generativa, apoiando empresas a integrarem práticas regenerativas em seus processos de decisão.
Como uma das coordenadoras, e também coautora, do livro “Ligando os pontos do ESG para uma nova dinâmica”, publicado pela Literare Books International e já consagrado como best-seller, Marcela tece uma reflexão profunda sobre o papel da consciência, da ética e da espiritualidade nas organizações. Ao lado de Andrea Ciaffone e Marcel Spadoto, ela orquestrou uma verdadeira jornada de integração entre propósito e performance, reunindo 39 vozes que traduzem o ESG não como modismo, mas como uma nova lógica de vida e regeneração.
Nesta entrevista exclusiva para o blog da Literare Books, Marcela compartilha os bastidores da obra, o processo de curadoria e sua visão sobre o futuro das lideranças e das empresas. Entre um ponto e outro, ela nos convida a repensar a forma como produzimos valor, e a enxergar o ESG como um sistema vivo, capaz de conectar negócios, pessoas e planeta em um mesmo propósito de evolução.
1. O que significa “ligar os pontos do ESG” para você, e como essa abordagem se diferencia do senso comum sobre o tema?
Quando digo “ligar os pontos do ESG”, estou falando de sair da lógica do checklist e entrar na lógica da vida. ESG, para mim, não é um conjunto de planilhas; é um sistema vivo que conecta decisões do dia a dia a consequências no território, nas pessoas e no futuro. Ligar os pontos é integrar ética, estratégia, cultura, finanças, tecnologia, cadeia de valor e espiritualidade prática – para que o negócio gere mais vida do que consome. O senso comum costuma tratar ESG como compliance ou marketing: algo periférico, trimestral e fragmentado em “E”, “S” e “G”. A minha abordagem desloca o ESG para o centro do modelo de negócio e o enxerga como uma capacidade organizacional: aprender continuamente, regenerar recursos, fortalecer vínculos e criar valor sistêmico. Em vez de “reduzir dano” apenas, perguntamos: “esta decisão aumenta a capacidade do sistema de se regenerar?”. Quando a resposta é sim, as métricas deixam de ser só defensivas e passam a medir longevidade, confiança e impacto líquido positivo. É assim que esses pontos se conectam: propósito guia, governança orquestra, pessoas encarnam, processos sustentam e o desempenho revela – no tempo certo – se estamos criando futuro.
2. Como nasceu a ideia do livro e qual lacuna vocês buscaram preencher no debate ESG?
A ideia do livro nasceu de um desejo profundamente feminino: o de unir vozes. Inicialmente, queria reunir mulheres que, em diferentes frentes, estavam vivendo o ESG não apenas como um conceito técnico, mas como uma forma de estar no mundo – expressando valores regenerativos através do trabalho, da liderança e da vida. Era um chamado para revelar o que há de mais sensível e humano por trás das agendas de sustentabilidade: o cuidado, a escuta, a empatia, a capacidade de nutrir sistemas vivos. Mas, no meio do caminho, percebi que, ao reunir apenas vozes femininas, eu mesma estava deixando de fora a energia masculina, que é parte essencial do equilíbrio. O verdadeiro ESG nasce da integração das polaridades – do acolhimento do sensível e da ação estruturante, da intuição e da razão, do fluxo e da forma. Foi então que abrimos espaço para essa complementaridade, e o livro ganhou outra dimensão: deixou de ser uma coletânea de perspectivas e se tornou um campo de integração entre o feminino e o masculino, entre o visível e o invisível. No fim, o que começou como o sonho de reunir histórias tornou-se a materialização da minha própria jornada como uma líder regenerativa. Fui sustentação para que 39 vozes e almas florescessem – cada uma trazendo sua semente única para esse ecossistema de consciência. E é isso que “Ligando os Pontos do ESG” representa: um ato coletivo de regeneração, onde o “eu” se transforma em “nós”.
3. Como foi a experiência de coordenação editorial ao lado de Andrea Ciaffone e Marcel Spadoto, reunindo tantas vozes e perspectivas?
O projeto começou a partir de uma parceria muito especial com a Andrea Ciaffone, que me acompanhou desde o início na revisão editorial dos capítulos, ajudando a dar forma, coerência e sensibilidade às ideias que estavam sendo gestadas. Andrea trouxe um olhar apurado, cuidadoso e profundamente humano, garantindo que cada voz pudesse se expressar com autenticidade e propósito. Já o Marcel Spadoto foi meu parceiro de captação e ancoragem. Ele ajudou a abrir caminhos, conectar novas vozes e propagar o livro em diferentes ambientes e ecossistemas, ampliando o alcance e a potência do movimento que estávamos cocriando. Trabalhar com os dois foi uma experiência de complementaridade perfeita, razão e emoção, estrutura e fluidez. Mais do que coordenação, foi um exercício vivo de liderança regenerativa em ação, onde cada um assumiu seu papel dentro de um mesmo propósito: fazer com que tantas vozes pudessem florescer em sintonia e coerência.
4. A curadoria do conteúdo organiza o livro como uma jornada, que vai de fundamentos éticos e humanos até tecnologia e espiritualidade nas organizações. Qual foi o critério central dessa costura temática?
Meu critério de costura foi ler todos os capítulos e perceber os temas centrais e suas correlações. Cada autor trouxe uma contribuição singular, e meu papel foi tecer um fio de continuidade, de modo que a passagem entre um capítulo e outro tivesse ritmo, fluidez e um senso de storytelling. Eu queria que o leitor sentisse a jornada como um movimento orgânico, onde cada voz prepara o terreno para a seguinte. O critério, no fundo, foi a integração da consciência. Desejávamos que o leitor fizesse uma travessia – do olhar racional ao olhar sistêmico, do fazer mecânico ao agir com alma. Por isso, estruturamos o livro como uma espiral evolutiva, em que cada capítulo amplia o campo de percepção e convida à prática. A espiritualidade surge ao final não como um tema separado, mas como o fio invisível que costura todas as dimensões – o lembrete de que toda ação verdadeiramente regenerativa nasce de uma consciência desperta.
5. O prefácio da Ministra Marina Silva destaca o ESG como um caminho para modelos inovadores e sinérgicos. Qual a importância desse reconhecimento institucional para a obra?
Ter o prefácio da Ministra Marina Silva foi algo profundamente simbólico e essencial para o propósito do livro. Marina representa uma trajetória de coerência rara, uma mulher que há décadas sustenta o diálogo entre política, natureza e espiritualidade, sempre lembrando que desenvolvimento não pode existir à custa da vida. A presença dela deu peso e legitimidade à obra, porque conecta o que construímos ao longo das páginas – a visão regenerativa e sistêmica do ESG – com o campo da ação pública e institucional. Sua assinatura reforça que o ESG não é apenas uma pauta empresarial, mas uma agenda civilizatória, que precisa ser abraçada por todos os setores da sociedade. Para mim, a participação da Ministra foi também um selo de coerência e esperança: ela é uma guardiã da floresta e do futuro, e ver sua voz abrindo o livro é um lembrete de que a regeneração começa pela coragem de manter-se fiel à vida, mesmo quando isso exige nadar contra a corrente. É a confirmação de que estamos no caminho de unir impacto, propósito e consciência.
6. O livro entrou rapidamente para a lista de mais vendidos e tornou-se best-seller. A que você atribui essa recepção tão expressiva em tão pouco tempo?
Porque há um vazio no coração dos modelos de negócio tradicionais, e ele já não pode mais ser preenchido com eficiência, controle e discurso. As estruturas que nos trouxeram até aqui não se sustentam diante de crises climáticas, sociais e de sentido. O mundo corporativo está sedento por mudança real, não por novas embalagens. O livro encontrou esse tempo-espírito. Ele tira o ESG do lugar do compliance e o recoloca no centro do modelo de negócio, como capacidade de regenerar valor – humano, ambiental e econômico – ao mesmo tempo. A recepção foi rápida porque oferecemos linguagem acessível + profundidade prática: casos, princípios, governança viva, cultura, tecnologia e espiritualidade integrados numa narrativa que dá direção. Também acredito que a força veio da autenticidade coletiva: 39 vozes diversas, com complementaridade de feminino e masculino, trazendo experiências reais e uma curadoria que conduz o leitor em jornada. Não é um livro sobre métricas apenas; é um livro sobre coerência, e a coerência toca. Por isso ele performou: porque nomeia o que muitos líderes sentem e indica caminhos aplicáveis para transformar a sede por mudança em ação concreta. Viramos best-seller porque há uma fome por futuro. O livro mostra que ESG não é relatório; é novo sistema operacional de negócios, capaz de gerar vida, resultados e sentido, juntos.
7. Você assina dois capítulos: “Liderança regenerativa” e “Espiritualidade nas organizações”. Como esses temas conversam e por que são pilares de uma agenda ESG contemporânea?
Eu assino a abertura e o fechamento do livro, dois extremos que, na verdade, se unem como um círculo. Começo com o tema da Liderança Regenerativa, porque acredito que toda transformação externa começa no autoconhecimento. É o primeiro passo da jornada: olhar para dentro, reconhecer nossas sombras e luzes, e desenvolver a capacidade de nos relacionar com o outro e com o mundo a partir de uma nova qualidade de consciência. Um líder regenerativo é aquele que se percebe como parte de um sistema vivo – que entende que regenerar empresas e ecossistemas começa por regenerar a si mesmo. E fecho o livro com um capítulo muito especial, escrito com a minha irmã de alma, Daniela Pinho, sobre a espiritualidade nas organizações. Esse encerramento foi intencional – um chamado para assumirmos, sem medo, a importância da espiritualidade como dimensão essencial da vida corporativa. Falar de espiritualidade não é falar de religião, mas de presença, propósito e sentido. É reconhecer que as empresas também têm alma, e que o verdadeiro impacto só acontece quando cultivamos essa coerência entre o fazer e o ser. Esses dois capítulos se complementam como inspiração e aterramento: o primeiro desperta a consciência; o último lembra que sem alma, nenhuma estratégia se sustenta. Entre eles, está toda a jornada do livro – que é, em essência, uma travessia da performance para a consciência, da eficiência para o cuidado, e do eu para o nós.
8. O debate sobre ESG evoluiu muito nos últimos anos, porém ainda enfrenta resistência e desinformação. Na sua visão, quais são os mitos ou distorções mais comuns que precisam ser desconstruídos para que o tema seja compreendido com seriedade?
O principal ruído não é técnico – é de nível de consciência. Muitas lideranças ainda operam na lógica do curto prazo defensivo: proteger trimestre, apagar risco, preservar status quo. Nessa lente, o ESG é visto como custo, burocracia ou narrativa reputacional. É compreensível: o ESG nasceu no mercado financeiro como mitigação de risco, portanto carregou, no início, a energia da escassez (“evite perda”).
O que propomos no livro é uma mudança de fundamento: do medo para a potência. ESG deixa de ser escudo e se torna ponte para modelos de negócio abundantes, prósperos e perenes, que geram valor no longo prazo porque aumentam a capacidade do sistema de se regenerar (ambiental, social e economicamente). Mitos a desconstruir, e o que colocar no lugar:
- “ESG é custo/obrigação.” → ESG é estratégia de longevidade. Redesenha produto, cadeia e capital para capturar oportunidades de uma economia em transição (natureza, energia, inclusão, dados).
- “ESG é marketing ou relatório.” → ESG é sistema operacional do negócio. Quando entra em propósito, finanças, design e gente, vira performance repetível, não campanha.
- “ESG atrapalha resultado.” → ESG requalifica resultado. Substitui margem “extrativa” por margem regenerativa, resiliente a riscos físicos, regulatórios e reputacionais.
- “É tema da área de sustentabilidade.” → É tema de CEO e Conselho. Governança que orquestra E, S e G integra incentivos, metas e alocação de capital.
- “É moda.” → É mudança de época. Nova infraestrutura econômica (natureza como ativo, trabalho como cuidado, dados como bem comum).
Da consciência escassa à consciência regenerativa (tradução prática):
- Horizonte de tempo: do trimestre → multi-gerações (valor que permanece).
- Métrica: do “evitar multa” → impacto líquido positivo (natureza, confiança, inovação).
- Capital: de alocação reativa → tese de crescimento em transição (novas receitas net-positive).
- Cultura: do compliance mínimo → coerência vivida (saúde mental, diversidade com poder real, aprendizagem contínua).
- Essência: ESG não é um fim; é a ponte da transição – do negócio que esgota para o negócio que expande vida e valor. Quando a liderança sobe o nível de consciência, o ESG deixa de ser “diferencial” e passa a ser a base do novo modelo de negócio.
ESG nasceu para reduzir risco; amadurece para gerar futuro. É a ponte entre medo e potência, onde empresas tornam-se abundantes, prósperas e duradouras.
9. A sigla ESG abrange dimensões ambientais, sociais e de governança. Qual delas você percebe que ainda recebe menos atenção na prática corporativa, e por que avançar de forma integrada é essencial para gerar valor real e duradouro?
Gosto de dizer que a sigla, na verdade, deveria ser GSE. Porque tudo começa pela Governança, que é o espaço onde se tomam decisões e se definem as prioridades – e dentro da governança, o primeiro ponto é trabalhar as pessoas, a liderança e a cultura. Sem consciência no centro das decisões, o “E” e o “S” se tornam apenas departamentos, e não dimensões vivas de um mesmo sistema. Quando alinhamos o ser, a empresa e a governança, criamos coerência. E essa coerência se manifesta na forma como a organização se relaciona com a sociedade em que está inserida, e, por consequência, com o meio ambiente que a sustenta. É uma cadeia orgânica de relacionamento sistêmico, onde cada nível influencia o outro: líderes conscientes constroem culturas éticas; culturas éticas fortalecem o tecido social; e uma sociedade saudável é a base para um planeta regenerado. Por isso, o avanço não pode ser fragmentado. A verdadeira maturidade ESG, ou GSE, é a capacidade de pensar, sentir e agir de forma integrada, entendendo que o propósito maior de qualquer organização é gerar vida, valor e legado em todos os níveis do sistema.
10. Para quem está começando agora no tema e deseja atuar de forma coerente e responsável, quais são os primeiros passos práticos para evoluir de intenção para ação?
Tudo começa pelo autoconhecimento. Antes de tentar regenerar empresas, é preciso regenerar a si mesmo. O primeiro passo é olhar para dentro, compreender quem você é, o que te move e o que ainda precisa ser curado. É um convite para alinhar internamente as energias feminina e masculina – o feminino do sentir, do acolher, do cuidar; e o masculino do agir, do estruturar, do realizar. Quando essas polaridades dançam em harmonia, nasce uma liderança que não atua por escassez ou controle, mas por presença e consciência. E esse caminho não exige perfeição, mas coragem para acolher as próprias imperfeições e sombras, permitindo que elas se tornem mestras. É a partir desse lugar de verdade e vulnerabilidade que surge a autenticidade, e a autenticidade é o que dá força à ação regenerativa. Somente quem se conhece profundamente consegue agir com coerência e transformar propósito em prática. O ESG começa dentro, na forma como nos relacionamos conosco, com o outro e com o mundo. Quando nos mostramos com verdade, inteireza e alma, tudo ao redor começa a se alinhar. E é aí que a regeneração deixa de ser discurso, e passa a ser estado de ser.


