De médica a paciente. De um diagnóstico difícil ao nascimento de um propósito. Assim nasceu Do outro lado da mesa – De médica a paciente! Do câncer ao propósito de vida!, best-seller publicado pela Literare Books International, que vem emocionando e inspirando mulheres em todo o Brasil.
A autora, Dra. Mariana Mendes, viveu uma reviravolta profunda ao ser diagnosticada com câncer de mama. No momento em que deixou o jaleco para sentar-se “do outro lado da mesa”, redescobriu o verdadeiro sentido da medicina e do cuidado humano. Essa vivência, marcada por fé, vulnerabilidade e coragem, deu origem ao Projeto Enlace, uma rede de acolhimento que oferece escuta, apoio emocional e informação a mulheres em tratamento oncológico.
Durante o Outubro Rosa, o livro tem ganhado ainda mais destaque, tornando-se uma leitura essencial nas ações de conscientização sobre o câncer de mama. A obra ultrapassa as páginas e se transforma em um convite à reflexão sobre o autocuidado, o acolhimento e a importância de enxergar a prevenção como um gesto de amor e coragem.
Nesta entrevista especial, Mariana fala sobre o processo de escrita, os desafios de expor uma história tão pessoal e o impacto que seu relato tem gerado em mulheres que buscam força, esperança e sentido em meio à adversidade. Um diálogo que toca o coração e reafirma que a empatia e o cuidado humano são pilares indispensáveis, tanto na medicina quanto na vida.
1. Como surgiu o desejo de transformar sua história em um livro?
A ideia de transformar a minha história em um livro nasceu das faltas que encontrei durante o meu próprio tratamento. Eu percebi o quanto faz diferença compartilhar histórias, o quanto ouvir e ser ouvida fortalece emocionalmente e pode até ajudar no tratamento. Muitas vezes, durante a dinâmica dos atendimentos, somos vistas apenas como “pacientes”. Mas, na verdade, somos mulheres com medos, inseguranças, incertezas e, muitas vezes, não sabemos como lidar com tudo isso. Então eu quis dar voz a essa mulher que existe por trás do diagnóstico e difundir a importância do acolhimento emocional, de uma medicina mais empática e mais humana.
2. Qual foi o momento mais desafiador durante o processo de escrita?
O mais desafiador foi transformar uma história tão pessoal, que sempre foi vivida de forma muito discreta, em algo público. O grande desafio era fazer isso sem que o foco estivesse apenas na minha trajetória, mas que a minha história servisse como pano de fundo para difundir conceitos importantes sobre vulnerabilidade, empatia, escuta e cuidado integral. Eu queria que cada pessoa que lesse pudesse se reconhecer de alguma forma e encontrar sentido para sua própria caminhada.
3. Estar “do outro lado da mesa”, como paciente, mudou para sempre sua visão sobre a medicina? De que forma?
Estar do outro lado da mesa confirmou o que eu já acreditava desde a faculdade: que a medicina precisa ser mais humana. Essa experiência reforçou o quanto o acolhimento, a escuta e a presença do médico fazem diferença quando estamos em nosso momento de maior vulnerabilidade. Quando nos sentimos validadas nas nossas dores, quando confiamos no processo, conseguimos também nos tornar protagonistas do cuidado com a nossa saúde.
4. Como foi a parceria com a Literare Books na construção e divulgação da obra?
A parceria com a Literare foi muito boa. Eu me senti apoiada e acolhida desde o início.
Eles acreditaram na proposta, confiaram na mensagem e tiveram uma proximidade muito grande comigo em todo o processo, o que fez muita diferença. Foi realmente uma parceria de cuidado e propósito.
5. O livro tem emocionado e inspirado muitas leitoras. Há algum retorno que tenha te marcado especialmente?
O retorno tem sido incrível. O livro tem inspirado mulheres em tratamento, seus familiares, mas também pessoas que nunca viveram o câncer. Porque, no fundo, todos nós temos dores e o livro fala sobre isso: sobre como lidar com as dores e continuar buscando beleza na vida, apesar das circunstâncias. Uma leitora me disse que, depois de ler, passou a olhar para sua própria vida com mais propósito e esperança e isso, para mim, é a maior recompensa.
6. O Projeto Enlace nasceu da sua experiência pessoal. O que ele representa para você hoje?
O Enlace é a realização de um sonho. Ele representa o desejo de difundir o acolhimento e de enxergar cada mulher de forma integral. O projeto nasceu do que vivi e do que senti falta durante o meu tratamento. Hoje, ele faz diferença real na vida de muitas mulheres e famílias, ajudando-as a viver a jornada oncológica da melhor forma possível, com mais leveza, conexão e sentido.
7. Na sua visão, quais são os maiores tabus que ainda impedem as mulheres de procurar ajuda ou realizar exames preventivos?
Acho que ainda existe muito medo. Medo do diagnóstico, medo de perder o controle, medo de encarar algo que possa mudar completamente a vida. E há também uma questão cultural: fomos ensinadas a cuidar de todos, mas nem sempre aprendemos a cuidar de nós mesmas. Muitas mulheres acreditam que só devem procurar ajuda quando algo está muito grave e isso precisa mudar. A prevenção diz respeito à forma como escolhemos viver. É sobre a vida! É sobre isso que precisamos falar: sobre o cuidado como expressão de amor, de responsabilidade e de consciência.
8. Durante o Outubro Rosa, o livro ganhou ainda mais destaque. Qual mensagem você gostaria de deixar para as mulheres neste mês de conscientização?
O Outubro Rosa é um lembrete de que o autocuidado é uma forma de amor e de vida. Mais do que falar sobre o câncer de mama, ele nos convida a olhar para nós mesmas com gentileza, a ouvir o nosso corpo e a respeitar o que sentimos. Quero dizer a cada mulher que a prevenção é um gesto de coragem, e que o diagnóstico, se vier, não é o fim, mas pode ser o começo de uma nova forma de viver, com mais presença, propósito e gratidão pela vida.
9. Muitas mulheres relatam sentir-se obrigadas a “ser fortes o tempo todo” durante o tratamento. Como o livro aborda essa questão?
Essa é uma das mensagens centrais do livro. Nós não precisamos ser fortes o tempo todo. A força verdadeira está em se permitir sentir medo, tristeza, cansaço e, ainda assim, continuar caminhando. Durante o tratamento, há dias bons e dias desafiadores, e tudo bem. O importante é se acolher, se respeitar e entender que vulnerabilidade não é o oposto de força, ela é parte essencial da nossa humanidade.
10. Você acredita que a escuta empática e o acolhimento ainda são pontos frágeis na medicina tradicional?
Sim, acredito que ainda são pontos que precisamos fortalecer. A medicina tradicional, muitas vezes, foca muito na doença e pouco na pessoa. Mas o paciente precisa ser visto na sua totalidade, com emoções, crenças, inseguranças e esperanças. Quando o médico escuta com presença e empatia, ele oferece algo que nenhum exame pode substituir: o sentimento de ser compreendido e amparado. E isso, por si só, já tem um efeito terapêutico enorme.
11. Como a medicina integrativa se conecta com essa nova forma de enxergar o cuidado e a cura?
A medicina integrativa traz um olhar ampliado sobre o ser humano. Ela entende que a saúde vai muito além do corpo físico, envolve também as emoções, os pensamentos, os vínculos e o propósito de vida. Essa abordagem valoriza tanto o tratamento convencional quanto as práticas que fortalecem o bem-estar, como alimentação, movimento, sono, espiritualidade e equilíbrio emocional. É uma medicina que busca devolver ao paciente o protagonismo sobre o próprio cuidado, unindo ciência, sensibilidade e humanidade.
12. Se pudesse resumir em uma frase o propósito de “Do outro lado da mesa”, qual seria?
Transformar dor em propósito e inspirar uma nova forma de cuidar: mais humana, empática e significativa, lembrando que cada dor pode ser uma oportunidade de crescimento e que a vida precisa ser vivida com esperança e significado todos os dias.


