O lançamento de Perspectivas Legais – Volume II: Autismo e a Busca por Justiça marca mais um capítulo de um movimento que ultrapassa as páginas do livro e ressoa na vida de milhares de famílias brasileiras. À frente dessa coletânea que une técnica, sensibilidade e propósito está Luiza Lucena, advogada especialista em Direitos das Pessoas Autistas e com Deficiência, uma das principais referências nacionais na área.
Coordenadora técnica da primeira pós-graduação do Brasil totalmente dedicada aos Direitos dos Autistas e sócia-fundadora do Monteiro Lucena Advogados, escritório reconhecido por sua atuação estratégica e humanizada, Luiza tem sido uma das vozes mais potentes na defesa da dignidade e inclusão das pessoas autistas. Autora do best-seller Perspectivas Legais – Volume I, palestrante, mentora e idealizadora do programa “Direitos dos Autistas”, ela já impactou centenas de profissionais e se tornou um símbolo de compromisso ético e social.
Nesta entrevista, Luiza fala sobre os bastidores da coordenação dos dois volumes, a curadoria dos capítulos, a parceria com a Literare Books, a urgência do debate sobre autismo no Brasil, e compartilha reflexões profundas sobre o papel do Direito como instrumento de acolhimento e transformação social.
1. O primeiro volume de “Perspectivas Legais” foi um sucesso nacional e chegou à lista dos mais vendidos. Como foi para você coordenar esta segunda edição depois de uma repercussão tão expressiva?
Coordenar o segundo volume foi uma alegria profunda. O primeiro livro trouxe algo muito especial: ele mostrou que existe uma imensa sede por informação verdadeira, acolhimento e justiça. Quando a obra alcançou a lista dos mais vendidos, senti que não era apenas um reconhecimento editorial, mas a confirmação de que dar voz às pessoas autistas e às famílias atípicas é uma missão que transforma realidades. Ver o impacto daquele primeiro volume, as mensagens emocionadas que recebi, as histórias que chegaram até mim e a forma como o livro tocou profissionais, mães, estudantes e advogados despertou em mim uma gratidão imensa. Saber que a ciência, o Direito e o amor podem caminhar juntos é algo que me move profundamente. Dar continuidade a essa obra foi algo natural. Foi atender a um chamado que nasceu do coração das famílias e que também ecoou dentro de mim. Não se tratou de responsabilidade, mas de propósito. Coordenar esta segunda edição foi celebrar o poder da informação e a beleza de ver tantas vozes unidas pela dignidade humana.
2. O novo volume nasce “do eco do primeiro livro”. Que tipo de retorno de famílias e profissionais motivou a continuidade dessa obra?
O retorno foi profundo e inesperadamente grandioso. Recebi mensagens de mães dizendo que o livro as ajudou a compreender direitos que nunca lhes foram explicados, profissionais relatando que passaram a atuar com mais segurança, estudantes que encontraram direção e advogados que descobriram uma área de propósito. Mas o impacto foi além das famílias e da comunidade jurídica: o livro me levou ao STF para uma entrevista institucional, e também recebi uma carta de agradecimento da ministra Nancy Andrighi, reconhecendo a relevância da obra para o debate nacional sobre os direitos das pessoas autistas. Essas manifestações mostraram que Perspectivas Legais não foi apenas um livro, mas um movimento de conscientização. Ele deu visibilidade a temas que ainda precisavam ser discutidos e trouxe ainda mais autoridade e responsabilidade para minha carreira e para a de todos os coautores. Esse eco coletivo revelou que havia dores ainda não nomeadas e necessidades ainda não atendidas. Este segundo volume nasce exatamente para responder a esse chamado e ampliar a conversa iniciada no primeiro.
3. Como foi o processo de curadoria dos temas e autores desta nova edição, que reúne especialistas de tantas áreas diferentes?
A curadoria deste volume nasceu de algo muito maior do que uma simples escolha técnica. Eu queria que cada capítulo carregasse verdade, sensibilidade e compromisso com a vida das pessoas autistas. Por isso, busquei autores que não apenas dominam seus temas, mas que também vivem a causa, sentem a causa e compreendem a profundidade do que significa lutar por dignidade. Reuni advogados, terapeutas, médicos, educadores, psicólogos e pais atípicos porque acredito que o autismo não pode ser explicado por uma única lente. É um universo que exige diálogo entre saberes, e cada autor trouxe um olhar que completa o outro. Meu critério principal foi o propósito. Convidei pessoas que escrevem com o coração, que têm responsabilidade ética e que enxergam o autismo com respeito e humanidade. A diversidade de áreas não foi um desafio, mas uma riqueza. É essa pluralidade que torna o livro tão vivo, tão necessário e tão fiel à complexidade das histórias que ele busca honrar.
4. Quais foram os principais critérios que você usou para escolher os capítulos e manter o equilíbrio entre o rigor jurídico e a sensibilidade humana que marcam a obra?
Os critérios nasceram da vida real. Antes de pensar em técnica, eu pensei nas famílias. Perguntei a mim mesma quais temas tocam diretamente o cotidiano de quem vive o autismo e que tipos de conteúdos poderiam aliviar dores, esclarecer dúvidas e fortalecer jornadas. A partir disso, selecionei assuntos que realmente fazem diferença, seja no acesso a terapias, na inclusão escolar, nos direitos previdenciários ou na proteção contra injustiças institucionais. Outro ponto fundamental foi escolher autores que compreendem que escrever sobre autismo não é apenas transmitir conhecimento, mas honrar histórias. Eu buscava pessoas capazes de unir profundidade jurídica e sensibilidade humana, sem perder de vista que, por trás de cada norma, existe uma criança esperando cuidado e uma família esperando justiça. O equilíbrio entre rigor técnico e humanidade não foi algo que precisei forçar. Ele aconteceu de forma natural porque esta obra nasce do encontro entre saber e propósito. Perspectivas Legais é, antes de tudo, um livro sobre pessoas; o Direito é apenas o instrumento que conecta cada capítulo ao que realmente importa: a dignidade humana.
5. Você assina capítulos sobre desinformação e violência institucional. O que te inspirou a abordar esses temas?
Esses temas fazem parte da minha caminhada desde o início. A desinformação é uma ferida silenciosa que atravessa a vida de muitas famílias. Ela confunde, paralisa, atrasa diagnósticos, dificulta tratamentos e, muitas vezes, transforma direitos básicos em verdadeiras batalhas. Sempre enxerguei a desinformação como uma violência que não deixa marcas no corpo, mas deixa cicatrizes profundas na alma. Já a violência institucional é um dos maiores desafios enfrentados por quem vive o autismo no Brasil. Ela aparece nas negativas injustas dos planos de saúde, na falta de preparo das escolas, nos atendimentos públicos que não acolhem, nas portas que se fecham quando mais se precisa delas. É uma violência que se repete todos os dias e que, por ser tão comum, corre o risco de ser naturalizada. Escrever sobre isso foi inevitável. Senti que precisava dar nome ao que tantas famílias vivem, mas muitas vezes não conseguem traduzir em palavras. Esses capítulos são um pedido de conscientização, um convite ao debate e, acima de tudo, um gesto de respeito a quem luta diariamente contra estruturas que insistem em negar dignidade. Minha inspiração veio da dor que testemunhei, mas também da força dessas famílias. Falar sobre esses temas é uma forma de honrar cada uma delas.
6. Nos últimos anos, o debate sobre o autismo vem ganhando visibilidade. Que lacunas legais e sociais você ainda enxerga e que o livro busca ajudar a preencher?
As lacunas são muitas. Ainda faltam políticas públicas efetivas, formação adequada para profissionais, respeito aos protocolos terapêuticos, compreensão sobre direitos previdenciários e apoio concreto às famílias. Há um abismo entre a lei e a realidade. Este livro busca construir pontes. Ele ajuda o leitor a entender direitos, reconhecer injustiças e agir com mais consciência. É um guia que informa, mas também provoca reflexão.
7. A coletânea mostra que lutar pelos direitos das pessoas autistas é lutar pela dignidade humana. De que forma o Direito pode ser mais empático e acessível?
O Direito se torna mais empático quando deixa de olhar apenas para normas e começa a olhar para vidas. Empatia jurídica é compreender que um processo não é um número, mas uma criança sem terapia, uma mãe exausta, uma família que luta todos os dias. O Direito precisa ser ponte, não barreira. Precisa acolher antes de punir, compreender antes de exigir. Quando o conhecimento é compartilhado com clareza, ele liberta.
8. Como tem sido a parceria com a Literare Books?
A parceria com a Literare Books tem sido muito especial. A editora compreendeu o propósito desta obra desde o primeiro momento e abraçou a causa com sensibilidade, profissionalismo e verdadeiro compromisso social. A Literare é hoje a maior editora do Brasil no segmento de livros voltados ao autismo, e isso se reflete na seriedade com que tratam cada projeto que envolve essa comunidade. Eles nunca enxergaram Perspectivas Legais apenas como um produto editorial, mas como um instrumento de transformação. Ter ao lado uma editora que entende a força dessa pauta, que acredita na importância da informação para mudar realidades e que oferece estrutura para que o livro alcance quem mais precisa faz toda a diferença. É uma parceria que soma propósito, experiência e amor pela inclusão. E isso transparece em cada página desta obra.
9. Você também coordena a primeira pós-graduação do Brasil dedicada aos Direitos das Pessoas Autistas. De que forma a experiência acadêmica contribui para o livro, e vice-versa?
A pós-graduação me permite ver, de forma muito nítida, onde estão as maiores dúvidas, inseguranças e necessidades dos profissionais que desejam atuar com responsabilidade na defesa das pessoas autistas. Ali, eu acompanho diariamente histórias reais, desafios concretos e reflexões profundas que enriquecem meu olhar e ampliam meu compromisso com a causa. Essa vivência acadêmica alimenta diretamente o livro. Os temas que escolhi para esta edição surgiram justamente das demandas que vejo em sala de aula: direitos que ainda são pouco compreendidos, lacunas na formação jurídica tradicional e a urgência de humanizar o exercício do Direito. Ao mesmo tempo, o livro também devolve muito para a pós-graduação. Ele ilumina debates, inspira discussões e oferece aos alunos uma base sólida para pensar o autismo com sensibilidade, técnica e ética. É uma troca constante. O livro nasce da prática e da escuta; a pós-graduação se fortalece com o conhecimento compartilhado na obra. As duas iniciativas caminham juntas, guiadas pelo mesmo propósito: transformar a forma como o Direito enxerga, acolhe e protege as pessoas autistas no Brasil.
10. Para encerrar: que mensagem você gostaria de deixar aos leitores que buscam compreender mais sobre o autismo e o papel do Direito na promoção da inclusão e da justiça?
Eu gostaria que cada leitor soubesse que compreender o autismo é um gesto profundo de humanidade. É olhar para o outro com respeito, paciência e verdade. Quando buscamos informação, quando estudamos, quando nos abrimos para escutar as famílias e entender suas dores, estamos exercendo a forma mais bonita de justiça: a justiça que nasce do amor. O Direito tem força para transformar vidas, mas ele só cumpre seu propósito quando se aproxima das pessoas. Quando entende que por trás de cada processo existe uma criança que precisa de cuidado, uma mãe que luta, uma família que resiste. A lei, sozinha, não acolhe. Quem acolhe somos nós. Que cada capítulo deste livro desperte coragem, fé e consciência. Que ele inspire profissionais, mães, pais, estudantes e gestores a enxergar o autismo com mais sensibilidade e responsabilidade. E que cada leitor compreenda que inclusão não é um ideal distante, mas uma construção diária feita de pequenos gestos de respeito. O autismo não pede piedade. Pede dignidade. E dignidade se garante com conhecimento, empatia e ação. Se cada leitor carregar isso consigo, já estaremos transformando o mundo um pouco mais.


