À frente de uma das obras mais inovadoras sobre terapias assistidas por animais no Brasil, Natale Cotta vem transformando ciência, sensibilidade e interdisciplinaridade em um legado literário de impacto internacional. Servidora do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), especialista na institucionalização de Serviços Assistidos por Animais (SAA) e coordenadora do livro “Serviços Assistidos por Animais – Terapia do Amor Interdisciplinar”, Natale atua na vanguarda dos protocolos jurídicos e de biossegurança na implementação de cães de terapia em consultórios, clínicas, hospitais e sistema de justiça brasileiro.
Em entrevista para a Literare Books, ela compartilha os bastidores da construção da obra, os desafios e aprendizados de coordenar uma coautoria interdisciplinar inédita e a importância de unir ciência, ética e amor incondicional em protocolos terapêuticos assistidos por animais.
O livro reúne especialistas de diferentes áreas, como Medicina, Direito, Psicologia, Fonoaudiologia, Fisioterapia, Zootecnia e comportamento animal, para mostrar como a integração entre saberes pode transformar vidas humanas e garantir, ao mesmo tempo, o respeito à senciência e ao bem-estar animal.
Ao longo desta entrevista, Natale também fala sobre sua experiência editorial com a Literare Books, o impacto emocional de alguns capítulos da obra e a inspiração diária que recebe de seus companheiros de jornada: Theo Goldinho, Ben e Aurora, cães que hoje simbolizam acolhimento, humanização e esperança.
1. Como surgiu a vontade de transformar sua experiência com os “Serviços Assistidos por Animais” em uma obra tão abrangente e interdisciplinar?
Surgiu da necessidade de haver um local para buscar conhecimento científico sobre os animais. O livro é composto por artigos organizados e muitos deles internacionais, provenientes de lugares nos quais não conseguimos acessar uma pesquisa ampla e objetiva com facilidade. Além disso, há tantas pessoas incríveis realizando trabalhos extraordinários por todo o Brasil, que era necessário reuni-las em uma única obra. E é muito gratificante publicar esse livro pela Literare Books International, que compartilha desse propósito comigo. Coordenar um livro de coautoria também exige muitas habilidades.
2. Coordenar um livro de coautoria exige muitas habilidades. Como está sendo para você conduzir esse processo editorial junto à Literare Books?
É minha primeira experiência como coordenadora, e está sendo incrível vivenciar isso com a Literare Books International. Principalmente com a Leyne, consultora do projeto, que é uma grande referência e conduz tudo com muita maestria. Aprendo muito todos os dias. O processo tem sido muito interessante com cada autor. Busco conhecer cada um de perto, entender seus projetos, seus trabalhos e trazer temas relevantes sobre aquilo que eles já realizam há muitos anos, para que possamos replicar esse conhecimento e fazer com que ele seja multiplicado por todo o Brasil.
A experiência também é muito enriquecedora pela troca de diferentes pontos de vista e pela possibilidade de trazer um pouco do universo dos artigos científicos e do direito, com referências que vêm sendo defendidas mundialmente, para coautores que ainda não têm experiência na escrita científica. Temos coautores com trajetórias e histórias incríveis, mas que não se sentiam aptos a escrever um livro. E faz parte da minha construção com eles mostrar que todos nós podemos escrever um capítulo da nossa história, registrar nossas vivências e deixar esse legado
3. O livro ainda está em fase de edição. Como tem sido acompanhar a confecção da obra e ver esse projeto ganhar forma capítulo por capítulo?
Esse momento é sensacional, porque começamos a receber os artigos dos coautores e a conhecer os diferentes pontos de vista que eles trazem. É sempre um grande aprendizado, principalmente por se tratar de um livro que aborda a interdisciplinaridade.
Temos profissionais da Medicina, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, pessoas do Direito, da Zootecnia e especialistas em comportamento animal. São áreas distintas que proporcionam um enorme enriquecimento de conteúdo e uma valiosa troca de conhecimento. Ao mesmo tempo, a estrutura da escrita científica permanece a mesma, o que torna todo o processo muito bem direcionado e enriquecedor.
Está sendo uma experiência incrível fazer parte disso. É uma troca muito prazerosa e que agrega bastante.
4. Sua trajetória une ciência, sensibilidade e atuação institucional. Como esses três pilares se refletem no conteúdo do livro?
O conteúdo do livro é justamente a resposta para tudo isso: a materialização do invisível. A terapia do amor interdisciplinar muitas vezes não é percebida, mas, por meio da ciência, dos protocolos, da implantação e de uma estruturação adequada, conseguimos proteger os animais e trazer embasamento científico para que isso seja aplicado aos seres humanos de forma muito mais eficaz e potencializada.
5. A obra traz um olhar importante sobre a senciência animal. Por que era essencial incluir essa perspectiva como eixo central da publicação?
Isso faz toda a diferença no livro. O animal é o centro de toda a obra, é o centro do nosso mundo. Inclusive, o desenvolvimento da capa foi pensado justamente nesse sentido: trazer o animal como protagonista, e não nós, seres humanos. São os animais que lideram tudo isso. Hoje, eles já são considerados parte das famílias multiespécies, integrantes das nossas vidas e da sociedade. Porém, ainda vivemos em uma sociedade que não está estruturalmente preparada (nem mesmo em nível legislativo) para incluí-los de maneira adequada.
Mas acredito que, a partir deste livro e dos movimentos promovidos pelos coautores, conseguiremos avançar e contribuir para que o processo legislativo evolua na proteção aos animais e no fortalecimento dos serviços assistidos por animais.
6. Entre tantos temas abordados (tribunais, hospitais, manejo, luto humano e animal) houve algum capítulo ou discussão que especialmente emocionou ou surpreendeu você durante a organização do livro?
Um artigo que mexe muito comigo está sendo desenvolvido por uma psicóloga e uma fisioterapeuta, abordando a cinesiofobia na fisioterapia e o tratamento do medo associado à terapia com animais.
Existe também um tema que venho defendendo mundialmente: o caso de um paciente pós-AVC que convivia com cinesiofobia e permaneceu seis anos acamado. Após 45 dias de protocolo terapêutico associado aos animais, ele voltou a se levantar, abraçar a família em pé e deixou de depender da cadeira de rodas.
A cura e o tratamento da cinesiofobia associados à fisioterapia com animais realmente são algo que me toca profundamente. Eu vi, de perto, uma pessoa que não andava voltar a andar. Hoje, isso se transformou em um artigo científico que ganha voz e reconhecimento.
Ver esse conteúdo sendo materializado por duas profissionais incríveis, trazendo teorias sobre como acessar o paciente por meio da afetividade, da questão motora e da cognição, mostra que existe ciência por trás disso. Não foi acaso, milagre ou coincidência. Existe um planejamento estruturado e intencional para que esses resultados aconteçam.
Esse artigo mexe muito comigo porque dá voz, em nível mundial, à trajetória que venho construindo, além de ser desenvolvido com muito embasamento científico por duas profissionais extremamente competentes que estão compondo esse trabalho.
7. Como está sendo a experiência de reunir especialistas de diferentes áreas em uma coautoria inédita? O que essa interdisciplinaridade agrega à obra?
A obra é baseada na interdisciplinaridade, e eu percebi que ainda existe uma grande dificuldade no Brasil em compreender e aplicar essa visão interdisciplinar. Muitas pessoas acreditam que quem trabalha com animais é apenas o médico-veterinário. Em diversos lugares, inclusive, fui barrada por ser do Direito e querer atuar nessa temática.
No entanto, na Europa e nos Estados Unidos, essa interdisciplinaridade já é muito comum. É necessário haver uma equipe multidisciplinar, com visões interdisciplinares, para que os resultados realmente aconteçam.
Por isso, reunir todas essas perspectivas e diferentes profissionais em um único livro é, de certa forma, quebrar um paradigma: o de que somente o médico-veterinário pode trabalhar com animais. Não. O trabalho com animais envolve diversas especialidades, diferentes áreas do conhecimento e múltiplas interdisciplinaridades. Essas pessoas precisam se comunicar entre si, porque é justamente por meio dessa integração que conseguimos alcançar resultados muito mais potencializados do que imaginamos
8. Publicar pela Literare Books tem atendido às suas expectativas? Como você descreveria essa jornada editorial até aqui?
A Literare Books International me encontrou em outro projeto, e está sendo sensacional fazer parte de tudo isso. Era algo que eu desconhecia, porque eu não sabia como funcionava a construção de livros de coautoria. Então, tem sido um aprendizado muito grande.
A Literare possui uma equipe muito estruturada, organizada e uma empresa já solidificada no mercado, o que me transmite muita segurança, principalmente ao convidar coautores com tanto renome nessa temática. É importante que eles se sintam seguros em participar deste livro ao lado de uma editora séria, comprometida e que compartilha conosco esse mesmo propósito.
9. Theo Goldinho, Ben e Aurora têm papéis muito especiais na sua trajetória. De que forma seus companheiros de trabalho também inspiram e atravessam este livro?
Eu tinha o sonho de ter um Golden Retriever, e o Theo me mostrou que existia um propósito nisso. Esse propósito se tornou ainda maior com a chegada da Aurora e do Ben. Eles são o centro de eu estar aqui hoje. São a minha força motriz para continuar acreditando em um mundo melhor para os nossos animais e também na capacidade que eles têm de nos curar e de trazer mais ciência para o nosso mundo.
10. Quando o leitor finalmente tiver “Serviços Assistidos por Animais – Terapia do Amor Interdisciplinar” em mãos, qual principal transformação ou reflexão você espera despertar?
Que ele entenda que os serviços assistidos por animais possuem ciência, envolvem muitos profissionais, exigem uma comunicação interdisciplinar e são guiados por um amor incondicional.





