Giuliana Preziosi sempre acreditou que sustentabilidade vai muito além de relatórios, indicadores e estratégias corporativas. Após mais de duas décadas atuando na área, ela decidiu transformar inquietações em movimento e embarcou em uma jornada de 530 dias por 37 países, vivendo de perto diferentes culturas, realidades sociais e desafios ambientais.
O resultado dessa travessia é o livro “Passaporte para Sustentabilidade”, lançado pela Literare Books International, uma obra que mistura experiências pessoais, reflexões sobre comportamento humano e um olhar profundo sobre os caminhos possíveis para um futuro mais consciente e coletivo.
Mestre em Gestão pela Sustentabilidade pela FGV, especialista em neurociência, comportamento e desenvolvimento humano, Giuliana construiu uma trajetória marcada pela atuação em grandes empresas, participação em conferências globais da ONU e projetos voltados ao engajamento de pessoas e transformação cultural.
Nesta entrevista, a autora fala sobre os bastidores da escrita do livro, os aprendizados da viagem ao redor do mundo, os desafios de falar sobre sustentabilidade de forma humana e por que acredita que a verdadeira mudança começa dentro de cada pessoa.
- Em uma frase: o que é Passaporte para Sustentabilidade?
Passaporte para Sustentabilidade é uma travessia por 35 países que transforma 530 dias de estrada em um convite para abandonar o EGO, abraçar o ECO e descobrir que a verdadeira sustentabilidade nasce da ecologia das relações humanas.
2- O que te fez sair da teoria e literalmente dar a volta ao mundo para entender sustentabilidade na prática?
Atuo com Sustentabilidade há muito tempo desde uma época em que a maioria das pessoas desconhecida o termo. O assunto era novo e desafiador, mas a principal trava não estava em ideias de ações para colocar em prática, mas sim em engajar pessoas para compreender por que lidar com esta pauta. Na época já tinha concluído um MBA no tema e era responsável pela área de Responsabilidade Socioambiental em um grande Banco.
Quando entendi que atuar nesta área era lidar com comportamento, com mudança de mindset e quebra de paradigmas, comecei a enxergar caminhos para lidar com estes desafios. Confesso que nunca imaginei que sairia viajando pelo mundo, mas quando veio a oportunidade através de uma pessoa que entrou na minha vida, enxerguei o valor por trás do que poderia ser somente um ano sabático.
Era uma oportunidade de compreender os dilemas sociais e ambientais na prática, numa jornada de diferentes culturas, territórios, experiências. Era uma riqueza de experiências, de conhecimentos, de aprendizagem gigante, que eu não poderia deixar passar mesmo que fosse uma das decisões mais difíceis que tomei na vida. Porque estava com a carreira em ascensão e feliz com meu trabalho.
Foi assim que eu descobri que sustentabilidade não é um conceito a ser implementado. É um modo de estar no mundo.
3- Foram 530 dias de viagem. Qual foi o momento mais transformador dessa jornada?
Ah não foi um momento único, foi uma série de encontros que se costuraram em uma compreensão, em uma visão de mundo diferente e integrada ao mesmo tempo.
Claro que algumas travessias marcaram mais que outras. Na África, por exemplo, entre Quênia e Uganda, vendo mulheres caminhando quilômetros para buscar água e, ao invés de guardarem para si, dividirem com a aldeia inteira. Naquele instante, eu entendi visceralmente o que significa coletividade como ferramenta de sobrevivência e dignidade.
Aquilo me confrontou com uma verdade que nenhuma planilha tinha me mostrado: o egoísmo e o individualismo exacerbado nos empobrecem. A cooperação amplia nossas possibilidades de futuro. E isso não era filosofia — era prática, era vida, era a diferença entre prosperar e desaparecer.
Conhecer o Butão foi outra experiência incrível. Já tinha ouvido falar muito do FIB – Felicidade Interna Bruta mas como seria viver em um país que mede desenvolvimento com uma métrica de felicidade? Nesta travessia aprendi muito sobre o que é felicidade misturando todo o conhecimento de livros e teorias com a prática de uma governança local pautada em pessoas.
Voltei para o Brasil com uma convicção diferente, eu tinha mudado e isso fazia com que enxergasse o mundo de outra forma.
4- Em tantos países e culturas diferentes, o que mais te surpreendeu sobre como o mundo encara a sustentabilidade?
Que sustentabilidade é prática em muitos lugares, só não é chamada assim. Claro que ainda temos um caminho longo a ser percorrido que é desafiador, mas tem coisas interessantes acontecendo que trazem reflexões importantes quando olhamos para comportamento.
Na Ásia, vi que disciplina e coletividade não são apenas hábitos. São práticas de uma ecologia social que entende que o que eu faço nunca diz respeito só a mim. A limpeza das ruas no Japão, os processos de decisão em grupo no Laos, a hospitalidade silenciosa, tudo isso é sustentabilidade vivida, mesmo que ninguém use esse termo.
Na Europa, me surpreendeu ver que tradição e inovação podem caminhar juntas. Barcelona me mostrou que o passado pode dialogar com o futuro de formas criativas. A Suíça me ensinou que sustentabilidade também é sobre estilo de vida e pode ser prazerosa, não um sacrifício.
Mas uma reflexão importante quando falamos de comportamento e pessoas foi perceber que muitos lugares que enfrentam crises profundas têm mais clareza sobre interdependência do que países ricos. Quando você vive a escassez, você entende rápido que ninguém sobrevive sozinho. Quando você tem abundância, é fácil fingir que pode. E aqui entra uma certa complexidade que se reflete nos desafios que vivemos hoje enquanto humanidade.
5- Existe um lugar ou experiência que mudou definitivamente a sua forma de ver o impacto humano no planeta?
Eu percebi que todas as crises que enfrentamos, ambiental, social, econômica, cultural, política, nascem de algumas ilusões: a de que somos donos do planeta, temos recursos ilimitados e competição dita as regras. E sustentabilidade real começa quando a gente muda essa visão.
O impacto humano no planeta não é apenas sobre reduzir emissões, fazer coleta seletiva ou implementar projetos sociais. É sobre transformar a forma como nos relacionamos com a vida. E isso muda tudo, desde as decisões que tomamos no dia a dia até as estratégias que construímos nas empresas.
Por isso digo que Sustentabilidade é sobre pessoas. Começa num olhar de dentro para fora e meu livro é este convite para cada pessoa refletir o que tem por dentro.
6- O livro mostra que sustentabilidade não é só um conceito técnico. O que ela passa a ser, na prática, para você?
Sustentabilidade é ecologia de relações. E no caso de empresas, é estratégia de perenidade. É a consciência de que nossas escolhas individuais e coletivas retroalimentam os sistemas em que vivemos. Nada disso é neutro. O mundo está mudando e passando por vários desafios (aquecimento global, extrema pobreza, fome, desigualdade, preconceitos e discriminação, polarização e fake news, escassez de recursos, são apenas alguns exemplos). Não dá para ignorar isso ou achar que isso não impacta nossas vidas, seja no âmbito pessoal ou profissional (independente da área em que atua). Na prática, isso significa que sustentabilidade é sobre:
- Valores consistentes, não apenas escritos no papel
- Interesses coletivos, não apenas individuais
- Comportamento, não apenas discurso
- Cultura, não apenas relatório
- Engajamento humano, não apenas indicadores
- Decisões conscientes, não apenas compliance
- Pertencimento, não apenas responsabilidade
Quando você entende sustentabilidade dessa forma, ela deixa de ser peso e vira movimento. Deixa de ser vitrine e vira vivência. E aí, sim, ela se sustenta.
7- Você demorou cerca de 10 anos para escrever esse livro. O que mudou na sua visão entre a ideia inicial e a publicação?
Escrevi muitos textos durante a viagem e naquele momento meu objetivo era relatar o que eu estava vivendo. Eu queria apenas compartilhar as experiências, as aprendizagens, os encontros. Eu sempre soube que este livro existiria, mas eu não sabia qual seria o fio condutor para contar essa história. Nunca quis fazer um guia de turismo por exemplo apesar de muita gente me pedir dicas de lugares que fui, e eu sempre adora ajudar.
Depois da viagem de 530 dias, muitas coisas aconteceram na minha vida e isso foi muito importante para chegar no que seria essa forma de contar a história. Eu fui amadurecendo e entendendo a forma como tudo aquilo me mudou e me moldou.
Em 2023 fui convidada para participar do livro “Bora Inspirar”, vol II e foi a primeira vez que coloquei minha história num livro, em 1 capítulo. Depois encarei o desafio de assumir a coordenação editorial e coautoria do “Elas no Conselho: segredos de quem está nesta jornada”, marcando minha formação como Conselheira. Veio o convite para o “Mulheres na Sustentabilidade” para falar da minha trajetória na área. Depois “Ligando os pontos do ESG para uma nova dinâmica” onde pude trazer a interseção de dois conteúdos que me fascinam Sustentabilidade e Neurociência.
E aí me perguntei “como assim, tenho quatro livros e não tenho o livro que sempre soube que existiria falando da minha jornada pelo mundo?”
Esses 10 anos foram de integração. De entender como transformar uma experiência pessoal em um método que pudesse servir a outros. De aprender que a viagem não era só minha, era um espelho para quem lê.
A maior mudança foi essa: saí de “eu viajei e aprendi” para “nós todos estamos em uma jornada de transformação, e essa história pode nos ajudar a entender melhor nosso próprio caminho.”
8- Escrever sobre si mesma e sobre uma jornada tão intensa foi mais libertador ou desafiador?
Ambos. E essa tensão é importante. Foi libertador porque finalmente eu podia falar sobre as contradições que eu vivia. Sobre o desconforto que me moveu. Sobre as perguntas que não tinham respostas fáceis. Escrever me permitiu habitar aquele espaço entre o diagnóstico duro e a vontade de construir soluções. Mas foi desafiador porque exigiu vulnerabilidade. Exigiu que eu me colocasse no livro, não como especialista que tem todas as respostas, mas como uma pessoa em transformação contínua. E isso é arriscado. Porque quando você se expõe, você fica aberto a críticas, a incompreensões, a julgamentos.
Mas eu escolhi isso propositalmente. Porque se eu queria falar sobre humanidade, sobre engajamento, sobre mudança de mindset, eu precisava ser humana no livro. Não podia ser apenas teórica. Precisava ser viva.
9- Como foi transformar uma experiência tão pessoal em um livro com alcance coletivo, especialmente com a Literare Books International?
A Literare foi sempre uma grande parceira. Minha relação com a editora começou com o livro Elas no Conselho onde também atuei como coordenadora editorial e foi um dos processos mais ricos e cheios de aprendizados que já vivi. Depois teve o “Ligando os pontos do ESG” também com a Literare com um time de coatores bastante diverso e interessante.
Eu buscava uma editora que não só publicasse meu livro, mas realmente acreditasse no meu projeto, afinal, como já disse, sustentabilidade é sobre pessoas.
Foi isso que encontrei. Pessoas dispostas a me ajudar, apoiar, comentar, dar dicas e trazer orientações. Além da capacidade de distribuição do livro, colocando onde ele merece estar em todo Brasil.
10- Depois de tudo que viveu e escreveu, que pergunta você gostaria que o leitor fizesse a si mesmo ao fechar o livro?
“Quais são os meus passaportes?”. Essa pergunta costura tudo. Cada pessoa atravessa e carrega seus próprios mundos. Cada um de nós tem um passaporte de papel, com nossas experiências, nossas escolhas, nossos caminhos. E cada um tem um passaporte interno, feito de emoções, perguntas, transformações. Porque sustentabilidade não é um destino. É um movimento. E cada leitor é convidado a se mover, a se transformar, a se reconhecer como parte de um sistema vivo que depende de suas escolhas. Esse é o verdadeiro passaporte. Não para um lugar. Para uma forma de estar no mundo.





