A infância que precisamos ouvir: Entrevista com Francilene Torraca

Neuropsicóloga, mestra em Psicologia, referência nacional em ansiedade e mutismo seletivo. É assim que Francilene Torraca tem transformado a forma como o Brasil enxerga o sofrimento emocional da infância. Diretora técnica da Clínica Escutare, no Rio de Janeiro, autora de três livros sobre o tema, coordenadora do projeto “Ansiedade e Mutismo Seletivo” e pesquisadora dedicada à psicoeducação de famílias, ela se tornou uma das vozes mais importantes quando o assunto é saúde mental infantojuvenil.

Seu impacto ultrapassa consultórios, escolas e lares. Pelo relevante trabalho que desenvolve em prol da saúde mental de crianças e adolescentes, Francilene Torraca receberá da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, no dia 8 de dezembro de 2025, o Título de Cidadã Benemérita do Município, honraria concedida por iniciativa da vereadora Tânia Bastos. O reconhecimento consolida sua atuação técnica, científica e social como uma contribuição efetiva para a infância.

Francilene também assina a coordenação editorial das obras “Entendendo a ansiedade infantojuvenil”, livro que alcançou a lista dos mais vendidos no Brasil e se tornou referência para pais, educadores e profissionais de saúde. Agora, enquanto prepara o segundo volume e se dedica ao lançamento do livro infantojuvenil “A menina que não falava… e hoje não para de falar”, a autora reforça sua missão: tornar a ciência acessível, devolver voz às crianças silenciadas e fortalecer políticas públicas que protegem quem mais precisa.

Em uma entrevista exclusiva, Francilene compartilha os bastidores da coordenação editorial, os desafios de transformar ciência em linguagem acessível, os avanços no campo do mutismo seletivo e a urgência de olhar para a infância com mais responsabilidade, sensibilidade e coragem.

Uma conversa direta, profunda e necessária sobre ansiedade, voz, silêncio e esperança:

1. Você coordenou a obra “Entendendo a ansiedade infantojuvenil”, que chegou à lista de mais vendidos no Brasil. Como foi receber esse reconhecimento e que impacto esse resultado teve para você como autora e coordenadora editorial?

Receber esse reconhecimento foi extremamente significativo, especialmente em um país onde a ansiedade lidera o ranking de transtornos mentais. Ver uma obra científica, acessível e voltada para famílias e profissionais alcançar a lista dos mais vendidos nos mostra que existe uma urgência coletiva em compreender o sofrimento emocional das crianças e adolescentes. Para mim, Carol e os coautores, que nos dedicamos a estudar, escrever e sensibilizar a sociedade para esse tema, foi gratificante perceber que o público está buscando informação de qualidade para transformar realidades. Esse resultado também reforça o compromisso de continuar entregando conteúdo sério, atualizado e responsável. A obra se tornou um instrumento de psicoeducação que atravessa consultórios, escolas e lares, ajudando famílias a identificar precocemente sinais que antes eram negligenciados. Além disso, esse reconhecimento fortalece o movimento por políticas públicas, movimento do qual tenho orgulho de fazer parte. Esse impacto extrapola as páginas do livro e chega onde realmente importa: na vida das famílias.


2. Quais foram os maiores desafios e aprendizados na coordenação dos dois volumes da obra sobre ansiedade infantojuvenil?

O maior desafio foi encontrar uma linguagem que unisse rigor científico e acessibilidade. Eu e Carol, que coordenado comigo, sempre tivemos essa preocupação. Falamos com uma sociedade ansiosa que precisa compreender que ansiedade não é frescura, não é “drama”, e que se manifesta, na infância, em sinais muitas vezes ignorados: dores de barriga constantes, recusa escolar, crises matinais, medos exagerados, dificuldade de separação, explosões emocionais, rigidez, perfeccionismo, irritabilidade e até comportamentos regressivos. Precisávamos traduzir ciência para que o leitor dissesse: “isso acontece na minha casa”, “isso aconteceu comigo”, “eu nunca percebi que isso era ansiedade”. Coordenar uma obra como essa exigiu de nós muita sensibilidade para equilibrar o aprofundamento teórico com narrativas reais e aplicáveis. O processo nos mostrou que famílias querem entender, professores querem aprender e profissionais precisam de materiais claros e embasados para intervir com segurança. Compreender o sofrimento infantil não pode ficar restrito ao consultório; precisa estar nas escolas, na comunidade e, principalmente, na legislação que protege essas crianças.


3. O segundo volume de “Entendendo a ansiedade infantojuvenil” já está em desenvolvimento. O que os leitores podem esperar dessa continuação? Alguma novidade que você possa adiantar?

O Volume 2 vem ainda mais robusto, sensível e atualizado. Ele conversa com as demandas emergentes da infância e adolescência de hoje, trazendo temas como ansiedade na escola, ansiedade no TEA Nível 1, adaptações pedagógicas para alunos ansiosos, o papel da escola no cuidado emocional e, novamente, o Mutismo Seletivo, uma temática que fomos pioneiras em abordar com profundidade e embasamento científico. Vamos discutir também ansiedade em crianças com Altas Habilidades, ansiedade no TARE, além de ferramentas de intervenção transdiagnóstica e o tão necessário diferencial entre TDAH e ansiedade. É um volume construído com responsabilidade e propósito. Nosso objetivo é que pais, professores e profissionais encontrem ferramentas de ação imediata e compreensão profunda.


4. O processo de curadoria dos temas e capítulos costuma ser complexo. Como você selecionou os autores e definiu o recorte do conteúdo dessa obra tão sensível e necessária?

A curadoria foi guiada por um compromisso central: trazer conteúdo atual, embasado em evidências e relevante para a realidade emocional e escolar das crianças. Selecionamos autores que, além da trajetória acadêmica, vivem a prática clínica e educacional, entendendo de forma profunda o sofrimento infantil. Esse equilíbrio entre teoria e prática garante que os capítulos sejam aplicáveis, humanos e transformadores. O Volume 2 mantém essa proposta, com autores do primeiro volume trazendo novos direcionamentos e especialistas inéditos contribuindo com visões complementares. Nosso recorte é intencional: olhar para as lacunas que ainda existem na formação de educadores, profissionais de saúde e famílias. Essa obra nasce do entendimento de que o Brasil precisa falar de saúde mental infantil com seriedade.


5. Houve alguma abordagem ou conteúdo inovador que você fez questão de trazer para o livro, por entender que ainda falta nas discussões sobre ansiedade infantojuvenil?

Sim. Eu e Carol fizemos questão de trazer conteúdos que ainda estão ausentes da literatura brasileira. Um deles é a ansiedade silenciosa, aquela que aparece em crianças “boas”, “responsáveis”, “perfeccionistas”, mas que carregam medos profundos e autocobranças exaustivas. Outra inovação foi aprofundar a interseção entre ansiedade e neurodivergências, mostrar como o ambiente escolar pode intensificar medos, e discutir o impacto da ansiedade no aprendizado, convivência e autoestima. Também quis incluir abordagens terapêuticas contemporâneas, como modelos transdiagnósticos e intervenções baseadas em evidências que ajudam pais, escolas e profissionais a agirem de forma mais assertiva. Essa obra nasce de uma urgência coletiva, mas também de um compromisso social. Inovar é necessário, mas inovar com responsabilidade científica é fundamental. E essa foi a base do nosso trabalho.


6. Você está prestes a lançar um livro infantojuvenil sobre mutismo seletivo, “A menina que não falava… e hoje não para de falar”. O que pode compartilhar sobre essa história e o propósito por trás dessa obra?

Esse livro é especial porque agora é Anna quem fala. Uma pré-adolescente contando com sensibilidade tudo o que viveu quando era mutista: as sensações, os medos, os incômodos, a rigidez interna, o congelamento da fala e a dor silenciosa que ninguém via. É uma obra que cria identificação imediata com crianças e adolescentes, ao mesmo tempo em que educa pais e escolas sobre o que existe por trás do silêncio. Mais do que uma continuação, é um manifesto de esperança. A obra traz orientações práticas, acessíveis e emocionantes para famílias, escolas e profissionais. E ela também reflete meu compromisso com políticas públicas. Apoiar a aprovação de leis que protegem crianças mutistas seletivas, ao lado da Vereadora Tânia Bastos, reforçou ainda mais a necessidade de levar essa história para o mundo. Quero que cada criança silenciada encontre nesse livro a voz que ainda não consegue usar.


7. Como especialista em mutismo seletivo, qual considera ser o principal desafio da sociedade ao lidar com esse transtorno ainda tão pouco compreendido?

O maior desafio é a falta de conhecimento. O Mutismo Seletivo ainda é negligenciado, visto como timidez extrema, vergonha ou comportamento opositor. Isso faz com que crianças não recebam o tratamento adequado e, pior, sejam culpabilizadas por algo que não controlam. Faltam profissionais capacitados, faltam escolas preparadas e falta uma compreensão social profunda sobre o sofrimento que existe por trás do silêncio. Além disso, a ausência histórica de políticas públicas ampliou esse apagamento. Por isso, ver o Mutismo Seletivo finalmente chegando à legislação, através do trabalho que construí junto à equipe da Vereadora Tânia Bastos, é um marco no enfrentamento desse desafio. Criamos leis que protegem direitos, garantem adaptações escolares e reconhecem o mutismo seletivo como uma condição séria que precisa de cuidado. O desafio agora é disseminar esse conhecimento, para que nenhuma criança continue sendo silenciada pela falta de informação.


8. Sua atuação como autora e como coordenadora dentro da Literare Books envolve perspectivas diferentes. Como descreve sua experiência com a editora nessas duas funções?

Coordenar uma obra é construir algo a muitas mãos. É sentir a potência do coletivo, do encontro de saberes e da construção de uma narrativa que é maior que qualquer autor individualmente. É um processo vivo, dinâmico e profundamente inspirador. A curadoria exige sensibilidade, rigor científico e muita intuição editorial, e isso me encanta. Como autora, a experiência é outra: é íntima, profunda e emocional. Escrever é uma forma de entregar ao mundo uma parte de mim, um pedaço da minha história e do meu propósito. E esse trabalho também se entrelaça com minha atuação política. Quando vejo algo que escrevi transformando vidas, fortalecendo políticas públicas e gerando inclusão, compreendo que literatura é também uma forma de militância amorosa.


9. Você lidera o projeto “Ansiedade e Mutismo Seletivo” e ministra cursos on-line sobre o tema. Como esse trabalho influencia a produção dos seus livros e a forma como você comunica conhecimento para famílias e profissionais?

Esse projeto é um norte. Ele me conecta com famílias reais, histórias reais, dores reais. Toda semana sou lembrada do quanto é urgente falar sobre ansiedade e mutismo seletivo com profundidade, amor e embasamento científico. Ele me impulsiona a produzir livros que realmente ajudem, orientem e acolham.

Meu doutorado, voltado à validação de um programa de psicoeducação para pais, algo inédito no Brasil, reforça meu compromisso em transformar ciência em acessibilidade. Esse trabalho também se conecta à militância que exerço na construção de políticas públicas. Aprovamos leis que hoje dão visibilidade ao Mutismo Seletivo nas escolas e na sociedade. Escrever sobre esse tema não é apenas uma missão profissional: é um ato de justiça social. É ser a voz das crianças silenciadas, até que elas mesmas possam falar.


10. O que te inspira a continuar escrevendo sobre transtornos de ansiedade e mutismo seletivo? E quais novos projetos literários ou pesquisas podemos esperar de você nos próximos anos?

O que me inspira é ver o renascimento das crianças que antes viviam silenciadas. Ver famílias mais leves, escolas mais acolhedoras, profissionais mais preparados. Ver a fala emergindo, não como som, mas como liberdade. Nada é mais poderoso do que testemunhar o florescimento de uma criança que acreditava que não tinha voz. Sobre futuros projetos, sinto que estamos diante de uma geração que precisa ser ouvida urgentemente. Crianças sobrecarregadas, pais exaustos, adolescentes adoecendo em silêncio, relações fragilizadas, bullying disfarçado de brincadeira, especialmente entre meninas. A sociedade mudou, e a forma como olhamos para a infância e adolescência também precisa mudar. Continuarei escrevendo sobre essas urgências, ampliando minha atuação científica, e fortalecendo políticas públicas que deem proteção e dignidade às crianças com ansiedade e mutismo seletivo. Porque, no fim, meu trabalho existe para garantir que nenhuma criança cresça na sombra do silêncio.

E, como sempre digo: quando uma criança encontra sua voz, o mundo inteiro muda ao redor dela.

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